80 mil chamadas falsas já foram efetuadas ao 190 no primeiro semestre de 2015

Sergipe | 17/08/2015 08h04

Operadora atende telefone. Um cidadão solicita viatura, pois estão tentando roubar uma moça, num ponto de ônibus. Dois sujeitos em uma bicicleta estão armados fazendo um arrastão em uma avenida da capital. Um é magro, alto e tem tatuagens na perna, veste camisa branca e boné vermelho. O outro tem estatura mediana, usa boné paleta reta de cor azul e camisa preta. Ligação concluída em dois minutos, conforme manda o protocolo. Uma viatura é acionada. Três policiais são deslocados. 40 minutos procurando os suspeitos do assalto, sem êxito.

Este relato aponta o tempo gasto em uma ocorrência falsa. O Centro Integrado de Operações em Segurança Pública (Ciosp), acionado através do telefone 190, já recebeu no primeiro semestre de 2015, 997.283 ligações, das quais 83.115 correspondem a chamadas falsas. Ao total, quase uma hora é desperdiçada do tempo dos operadores de segurança pública, tempo que poderia estar sendo disponibilizado para atendimento a um cidadão em situação de risco.

Conforme o diretor do Ciosp, major Elias Linhares, são estruturados para atender à sociedade, 53 câmeras, mais de 200 viaturas do Corpo de Bombeiros e das Polícias Militar e Civil, monitoradas através de GPS. Além desses, existem dois convênios, um desenvolvido em parceria com o Tribunal de Justiça para agilizar o atendimento de ocorrências contra mulheres com medidas protetivas decretadas; e o outro com o sindicato dos taxistas, para agilizar o atendimento em ocorrências envolvendo taxistas, dentre outros.

“Todas estas ferramentas operadas por mais de 200 servidores, entre policiais civis e militares, bombeiros e civis (técnicos, atendentes do telefone de emergência e operadores de videomonitoramento) trabalham no Centro para atender à população dos municípios de Aracaju, Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora do Socorro, São Cristóvão, Itaporanga D’Ajuda, Laranjeiras, Maruim, Riachuelo e Santo Amaro das Brotas”, complementa o diretor.

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Thayne Evaristo, cidadã que já precisou dos serviços prestados pelo 190, comenta que chegou a ligar três vezes para o serviço solicitando apoio em uma ocorrência de perturbação do sossego , e a resposta da operadora foi que no momento estavam impossibilitados de atender, já que todas as viaturas estavam empregadas no atendimento de outros eventos.

A cada hora, os operadores do sistema recebem cerca de 20 trotes. Em média são 460 chamadas falsas por dia. Os operadores do sistema são treinados para identificá-las, entretanto em um trote bem elaborado, o criminoso pode ficar mais de dois minutos, tempo previsto para concluir a chamada e encaminhar ao despacho, ocupando a linha numa ocorrência complexa que inexiste.

Perfil

O perfil das pessoas que realizam trotes para o 190, mudou muito com o advento e disseminação da telefonia móvel. Se antes, o meio utilizado era um telefone público, conhecido como ‘orelhão’; hoje, qualquer aparelho móvel e um chip podem ser adquiridos por pessoas diversas, sejam homens, mulheres, crianças ou adolescentes das mais variadas classes sociais.

De acordo com o major Linhares, há o mito respaldado historicamente, de que há um aumento significativo no número de chamadas falsas, nas férias escolares. “É preciso entender, porém, que até esse dado modificou ao passar dos anos. Se antes, nas férias ou horários de saída de turno escolar, registrávamos uma elevação significativa, pois eram muito utilizados os telefones públicos, que ficavam próximos desses locais, atualmente esse recurso é pouco utilizado. Mudou a ferramenta e os horários, pois não estão mais condicionados a um aparelho público. De qualquer telefone móvel é possível cometer o crime ”, explicita.

O diretor ainda comenta que os atendentes são treinados para identificar um maior número possível de trotes. Linhares citou o exemplo de três telefones com origem em Itaporanga D’Ajuda, Propriá e Riachão do Dantas que foram bloqueados pelo sistema do Ciosp por terem feito mais de 20 ligações falsas em 10 dias.

“O próprio sistema bloqueia o número e quando a pessoa tenta ligar ouve uma mensagem dizendo que trote é crime. Ocorre que se a pessoa realmente estiver precisando do serviço vai ser duplamente prejudicada, pois não será atendida por aquele telefone”, explana.

Parcerias

O número alarmante motivou uma parceria entre a Secretaria de Segurança Pública e a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil Secção Sergipe (OAB/SE) a criar uma campanha de conscientização para esclarecer às pessoas sobre os perigos de fazer uma chamada falsa para um número de emergência.

De acordo com a secretária da Comissão de Direitos Humanos da OAB, Ilana Mirella Souza, a ideia surgiu depois que um integrante da comissão precisou dos serviços da polícia, mas demorou a ser atendido devido ao grande número de trotes no Ciosp.

A campanha formulada pela OAB tem inicialmente como público-alvo, alunos de escolas de ensino fundamental e médio. “Serão utilizadas ferramentas dinâmicas, como a participação da Companhia de Teatro Jovens no Palco, que trabalha o tema trote de forma lúdica em escolas, há cerca de dois anos. Estarão presentes também, profissionais de segurança pública, com o intuito de conscientizar os estudantes que enquanto eles brincam, algum conhecido pode deixar de estar sendo socorrido”, relata.

Para os adultos, detalha Ilana, o marketing da Ordem se preocupou em transmitir uma imagem mais realista. “ Utilizaremos mídias como outdoors, busdoors, multimídias em restaurantes e se possível nos traillers de filmes, em cinemas de Aracaju. Não adianta conscientizar, tem que impactar”, afirma.

Importância

A unidade tem como objetivo em um primeiro plano, responder de forma mais eficiente e eficaz às solicitações dos cidadãos que necessitam dos órgãos que integram a Segurança Pública, através do acionamento dos telefones de emergência, já que hoje trabalham em um mesmo espaço físico a Polícia Militar (PM), Polícia Civil (PC) e Corpo de Bombeiros Militar (CBM), sendo também acionados o Instituto Médico Legal (IML) e o Instituto de Criminalística, através da PC.

“Com a implantação do moderno sistema de comunicação digital, daremos um novo salto. Poderemos atender com muito maior presteza e rapidez, já que a comunicação que hoje se restringe à nove municípios será ampliada para as 75 cidades sergipanas. O sistema policial como todo, terá condições de se comunicar com mais qualidade e eficiência, o que gerará uma rapidez maior no atendimento das ocorrências”, informa Linhares.

É papel do Ciosp, como explica o major Linhares, subsidiar os gestores tanto no nível operacional como estratégico, com informações estatísticas obtidas a partir dos registros feitos, possibilitando a tomada de decisões e a formatação das diversas ações de execução e planejamento na esfera da Segurança Pública, tais como levantamento de áreas com maior incidência criminal; identificar a necessidade de redimensionamento de efetivos, veículos, unidades, etc.

O Centro não somente atende ocorrências por telefone e distribui as demandas, otimizando o monitoramento e despacho das viaturas dispostas na via pública, através do acompanhamento via GPS. “Ele auxilia às autoridades de Polícia Judiciária na atividade investigativa e mesmo o Judiciário na fase processual, na identificação de infratores através do fornecimento de imagens gravadas pelas câmeras. Contribuindo desta forma, para a diminuição dos índices criminais no Estado”.

SSP/SE

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